domingo, 26 de julho de 2009

Realmente divino



25/07/2009 - 15:00

O pequeno Mozart
Por Abelha
Nassif

Todos aqui no blog sabem de seu “encatamento” pelas crianças. Fala dos pequenos quase sempre como se tivesse sido hipnotizado por eles, sejam suas filhas e neta, seja qualquer criança.

Por isso vou falar de um menininho fantástico pra vc. E garanto que vai se apaixonar por ele!

Esta semana estava assistindo a um documentário no National Geographic e me deparei com este adorável garotinho americano de origem chinesa, MARC YU.

Filho de mãe solteira e criado com muito sacrifício por ela até ser descoberto como um dos maiores gênios mirins da atualidade.

Aos 2 anos Marc ouviu uma canção numa festa. Pouco depois, sentou-se ao piano e executou a música sem nenhum erro! Um ano depois, já tocava Beethoven.

O menino toca cello, violino e piano com maestria. Mas sua paixão e amor é pelo piano.

Hoje é capaz de tocar mais de 70 clássicos sem olhar a partitura. Seu talento e sucesso permitiram que ele fizesse um dueto com seu grande ídolo, o pianista chinês Lang Lang, de quem ganhou o apelido de “pequeno Mozart”. Para reforçar o talento, Marc pratica até oito horas de piano por dia. E adora!

Seu ouvido é tão afiado que reconhece qualquer nota musical como se identificasse cores. Segundo especialista isto é raríssimo em crianças de 7 anos!

Depois de ser descoberto a vida melhorou, a mãe recebe de entidades para cuidar do menino em casa, já que ele não frequenta escola comum, pois seus estudos equivalem a garotos de 15 anos (estava com 7 para 8 anos na época do documentário, hoje tem 10) e era motivo de chacota por ser genial em qualquer matéria.

O documentário também mostra a alegria do garoto quando descobre que já pode alcançar a oitava, pois os dedinhos cresceram o suficiente. É qdo a gente vê que ele realmente ama a música…

O menino é um fofo! Simpático, brincalhão, bem articulado e contador de piadas, já participou de vários programas de TV nos Estados Unidos, como o da Oprah.

Fico imaginando quantos gênios mirins devem existir no Brasil, cujo potencial nunca será descoberto por falta de atenção dos pais ou pelas deficiências inerentes de nossas escolas.

Ao mesmo tempo não sei até que ponto essa super exposição sobre sua genialidade poderá prejudicá-lo. Fica aberto à discussão para os especialistas do blog.

Lembrando que nosso genial Nelson Freire também começou a tocar aos 3 anos. Foi um garoto prodígio na época, parecia em jornais e revistas, ganhou viagens ao exterior.

Vejam como o garotinho manda bem:

Marc aos 9 anos em Shangai toca Korsakov
http://www.youtube.com/watch?v=TzmoO5ioVYI

Marc com 8 anos e seu grande ídolo, o fenomenal chinês Lang Lang - parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=f4AcsxOgS64&feature=related

Marc e Lang Lang - parte 3
http://www.youtube.com/watch?v=OeeYPIpNxxI&feature=related

Site de Marc e da mãe (uma oriental lindíssima por sinal)
http://marc-yu.com/

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Acesso a que cultura?

Cercado de artistas, Lula lança Vale Cultura em São Paulo em busca de "revolução" 23/07 - 22:48 - Marco Tomazzoni

SÃO PAULO – Um grande espetáculo serviu como plataforma para o lançamento do Vale Cultura na noite desta quinta-feira (23), no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, na presença do presidente Lula, que assinou o documento que oficializa o envio do projeto de lei ao Congresso Nacional. O benefício, no valor de R$ 50, vai funcionar nos mesmos moldes dos vales-transporte e refeição e conta com apoio maciço da classe artística: Fafá de Belém, a coreógrafa Deborah Colker, Bruna Lombardi, Claudia Abreu, o cineasta Cacá Diegues e o clã Barreto – Luiz Carlos, Lucy e o filho, o diretor Bruno Barreto – foram apenas alguns dos presentes na cerimônia.




Lula observa apresentação no Teatro Raul Cortez e defende "acesso do povo à cultura"
Tanto entusiasmo se deve ao possível impacto econômico que a medida terá no setor. A previsão do Ministério da Cultura (MinC) é que a adoção do vale injete na indústria cultural cerca de R$ 600 milhões por mês, o equivalente a estrondosos R$ 7,2 bilhões por ano, utilizados na compra de livros, CDs, DVDs, ingressos de cinema, teatro, museus e shows. Conforme o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o benefício não só deve trazer um incremento à renda dos artistas, como vai gerar um aumento nos postos de trabalho na área cultural. “Onde houver trabalhadores demandando cultura, haverá uma ampliação da oferta de emprego, gerando microeconomias nessas regiões”, apontou.
Esforçando-se para ser plural, a cerimônia reuniu artistas de diversas etnias e regiões do Brasil. Chico César, Roberta Sá, Tetê Espíndola, Vitor Ramil e Pinduca se apresentaram acompanhados e sozinhos, além de ter a companhia de um coral indígena, dançarinos e um grupo folclórico do Espírito Santo. Isso sem contar a participação do cineasta Eryk Rocha (filho de Gláuber), no palco para filmar ao vivo as apresentações. No encerramento, todos cantaram juntos a música “Comida”, dos Titãs – os versos “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” têm sido usados à exaustão para ilustrar como a cultura é um “bem fundamental na cesta básica do brasileiro”, como diz Ferreira.
O Vale Cultura será concedido através de um cartão magnético, em um mecanismo similar aos outros vales, e será aceito apenas em redes credenciadas, cadastradas junto ao MinC. Se não utilizar todo o crédito de uma vez, o trabalhador pode usar o saldo restante no mês seguinte. O foco do programa são funcionários que ganham até cinco salários mínimos, o que, segundo dados da Receita Federal, deve abranger 12 milhões de pessoas. O empregado contribui com 10% do valor do vale, o equivalente a R$ 5 por mês. Os 90% restantes ficam por conta da empresa, que terá o benefício fiscal de abater com este gasto até 1% do imposto de renda.
Emocionado, Ferreira destacou o lançamento do programa como um “momento histórico”, uma “revolução” para colocar a cultura no centro do desenvolvimento do País. O ministro fez questão de reconhecer os pioneiros do projeto – o diplomata Sérgio Paulo Rouanet e o ex-ministro Gilberto Gil –, que primeiro pensaram nas vantagens da novidade. “Investir no consumo doméstico da família significa que serão gestados novos agentes culturais, novos artistas, criadores e poetas. Em pouco tempo, veremos que o espaço doméstico, até então conectado quase que exclusivamente à televisão, passará a ter também em seu interior outros atrativos.”
Um “cineminha” para ver “Lula, Filho do Brasil”
Acompanhado de perto pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Lula até fez graça com o fato da mestre-de-cerimônias, a atriz Zezé Motta, citar mais de uma vez no protocolo a presença da possível candidata à presidência em 2010. “Eu não vou ler a nominata porque a Zezé Motta leu tantas vezes o nome da Dilma Rousseff que se tivesse um juiz eleitoral aqui, a Dilma já estava prejudicada”, brincou.




Lula abraça o cantor Chico César no palco
do Teatro Raul Cortez, em São Paulo

Se referindo ao Vale Cultura como uma “briga antiga”, Lula afirmou que o projeto é o primeiro passo para que “o povo brasileiro tenha acesso à cultura”. O presidente, no entanto, defendeu outras iniciativas para que o impacto seja mais efetivo. Como exemplo, elegeu a falta de salas de cinema e de teatro nas periferias como opção de entretenimento. “Cada vez fica mais difícil ir para o cinema por causa do transporte, segurança. O cidadão prefere sentar na frente da televisão e ver o que nós vemos, um misto de coisas boas com uma maioria de coisas ruins.”
A solução, na opinião de Lula, não seria estatizar os cinemas ou construir salas públicas, mas iniciar o debate em busca de uma política que inclua definitivamente os habitantes das áreas mais pobres e afastadas, onde está a maioria da população, através de uma combinação dos poderes das prefeituras, governo federal e estadual.
“Imaginar que um cidadão vai levantar lá nos confins do Judas, pegar um ônibus e levar duas horas para ir até o centro de São Paulo ver um filme é no mínimo não saber o conforto que é ficar na frente da televisão sem fazer nada.” E fez questão de citar “Lula, o Filho do Brasil”, filme biográfico de Fábio Barreto sobre anos de sua vida antes da presidência. “Um cineminha, Barreto, pelo menos para quando você terminar meu filme a gente ter esse prazer.”
O carro-chefe do Vale Cultura são as estatísticas do IBGE, datadas de 2006, de que apenas 14% da população brasileira vão mensalmente aos cinemas, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Por isso, a ideia é que o projeto de lei chegue à Câmara dos Deputados em caráter de “urgência urgentíssima”, seja votado daqui a 45 dias e depois siga para o Senado em busca de uma aprovação em tempo recorde.
“Espero que a gente consiga começar o ano com isso aprovado, porque depois também tem o processo cultural, que vai ter que ser trabalhado com os empresários, com os sindicalistas, na divulgação”, afirmou Lula. “É um trabalho que não é só do governo, mas dos artistas, da sociedade como um todo, para que as coisas possam acontecer.”

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Discurso de uma despedida tardia

É verdadeiramente difícil ficar calado diante de tantas besteiras que circulam na mídia. Tenho evitado falar neste blog, pois tenho a sensação de que quanto mais há pessoas dando palpites sobre assuntos para os quais não têm autoridade o suficiente para falar, pior fica o quadro cultural desse país. Mas me incomoda profundamente a atenção que a mídia tem dado à morte desse tal “astro da música pop”. Lembro-me de que quando o Sivuca faleceu o sítio da UOL publicou uma pequena nota para informar sobre sua morte. A televisão mal falou do assunto. Recordo-me ainda de que este mesmo sítio informava sobre uma apresentação da sandy com uma foto em destaque, deixando bastante escondida a notícia sobre a morte do Sivuca. Vendo os jornais de hoje, eu fico me perguntando: qual é a importância que esse tal astro tem para a cultura brasileira? Ele, o pessoal do U2 e a Madonna de vez em quando aparecem ao lado de pobres e marginalizados, ou quando não, apelam para discursos demagógicos sobre pobreza e política. Acho que esse discurso tem um bom fundamento: eles precisam muito mais dos pobres e negros do que pobres e negros precisam deles. Ninguém faz arte exibindo miséria, fazendo vídeo em favelas. Isto é chamar o público de idiota, é ignorar as sutilezas da arte. Não tem sido nada estranho, contudo, que as atuais gerações já não vêm diferença entre Paulo Coelho e Machado de Assis, entre o quen quen quen e a música de Villa-Lobos, entre a caricatura e a realidade. Isto não acontece porque a verdadeira arte está morta;isto acontece porque ela tem sido negada cretinamente por emissoras de TV e outros meios de comunicação que manipulam as informações e tentam a todo custo transformar o espetáculo em arte. É unicamente a sociedade do espetáculo, o circo, que interessa à imprensa. E quando aparecem palhaços, como esse tal astro que faleceu esta semana, aí só fica faltando pão.

Segue abaixo uma entrevista com o mestre Suassuna. É de 96, porém bastante atual.

Abraços, amigos!



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Sertanejo da Paraíba radicado há décadas no Recife, Ariano Suassuna vai finalmente lançar, pela editora Record, um livro em que reescreve tudo o que produziu na vida. A tarefa se arrasta há anos. Não é para menos. Nesta entrevista, além de chamar de equivocados os que defendem a abertura dos portos ao "lixo cultural" estrangeiro despejado goela abaixo de países-satélites como o Brasil, ele faz uma lista dos artistas e escritores que realmente representam a cultura brasileira. Autor de peças como "Auto da compadecida" e do imerecidamente pouco conhecido romance "A pedra do reino", Suassuna, aos 69 anos, vem se dedicando a uma cruzada solitária em defesa de manifestações da criatividade popular.

A íntegra da entrevista

Há quem diga que quem defende a preservação da chamada "arte popular" defende a manutenção da pobreza. Porque, se tivessem acesso à educação, os artistas populares deixariam de produzir obras formalmente primitivas...

ARIANO SUASSUNA: Se realmente a opção fosse esta eu não teria duvida: seria melhor que a injustiça desaparecesse, mesmo que a arte popular desaparecesse com ela. Mas isso é um sofisma criado por por pessoas que detestam as manifestações populares da nossa cultura. Eu gostaria de refutar esse lugar-comum segundo o qual as obras da arte popular são necessariamente rústicas e primitivas. Veja-se, por exemplo, esta décima do cantador Dimas Batista, que poderia ter sido escrita por Calderón de la Barca: "Na vida material/ cumpriu sagrado destino:/ o Filho de Deus, divino,/ nos deu glória espiritual./ Deu o bem,tirou o mal, livrando-nos da má sorte".

Não é ingenuidade querer que a cultura brasileira seja preservada numa redoma à prova de influências externas, numa época em que as relações econômicas sofrem um processo radical de internacionalização?

SUASSUNA: Colocar a cultura brasileira numa redoma, além de impossivel, é indesejável, e eu venho afirmando isso há muito tempo. Em 1963, publiquei um artigo no qual dizia que a arte que se tornasse uniforme não se tornaria mais pura, e sim mais pobre. Em 1974, eu afirmava que somente fortalecendo o tronco negro, indígena e ibérico de nossa cultura é que qualquer coisa que nos venha de fora passa a ser, em vez de uma influência que nos esmaga e nos massifica num cosmopolitismo achatador e monótono, uma incorporação que nos enriquece. O que não posso aceitar é que brasileiros equivocados queiram que, em nome de nossa bela e fecunda diversidade, aqui seja acolhido também o lixo cultural, que é um subproduto da indústria cultural americana espalhado pelo resto do mundo, como se fosse coisa mais importante do ue os romances de Faulkner. Ou seja: não tenho nada contra Melville. Mas não venham exigir que eu ache que Michael Jackson e Madonna têm a mesma importancia que Melville ou Euclides da Cunha. Tenho pelo "lixo cultural" brasileiro horror igual ao que tenho por qualquer outro.

Você não acredita que manifestações culturais possam absorver criativamente influências externas ? Um violeiro que vê televisão não pode se enriquecer com as informaçõs que recebe?

SUASSUNA: Qualquer um se enriquecer com as informações que recebe. Eu leio jornais e vejo televisão. Os cantadores e violeiros nordestinos também. Nenhum de nós perde, com isso, a garra brasileira e o senso crítico e satírico.

Entre passar um fim de semana passeando com Woody Allen em Manhattan ou cavalgando com um vaqueiro no sertão da Paraíba, que opção faria?

SUASSUNA: Passear por Manhattan, com Woody Allen ou outra pessoa qualquer, é coisa coisa que não representa qualquer atrativo para mim. Nunca saí do Brasil, mas já que estamos no terreno das hipóteses, por que você não pensa em alguém melhor e num lugar melhor? Quanto à outra alternativa, não tenho mais a resistencia para sair por ai' afora, cavalgando.

Qual é a pior doenca do Brasil hoje?

SUASSUNA: Machado de Assis fez uma distinção definitiva entre o Brasil oficial e o Brasil real que, a meu ver, é o do povo, o do "quarto Estado". Nossas maiores doenças têm origem no Brasil oficial, e a cura só pode vir do Brasil real. O Brasil oficial é o problema. Ou, um pouco à moda de Unamuno: "Brasil é o problema, Brasil é a solucão".

Você ainda reclama das guitarras elétricas. Isso não é uma discussão superada desde os anos 60?

SUASSUNA: Vou mais longe, até. Esta e' uma discussão que não tem o menor interesse, desde muito antes. Nem nos anos 60 ela fez parte das minhas preocupações. Em música, gosto de Vivaldi, Scarlatti, Stravinsky, Erik Satie, José Mauricio, Villa-Lobos e Guerra Peixe. Mas, quando me entrevistam, fazem perguntas sobre guitarra elétrica, Michael Jackson e Orlando Silva. É por isso que apareço falando sobre pessoas sobre as quais não tenho o menor interesse. Nunca me viriam à lembranca se não me fizessem tais perguntas.

Você diz que não tem interesse por compositores como Caetano Veloso e Gilberto Gil, porque eles são influenciados pela massificação cultural americana. Não reconhece nenhuma contribuição desses compositores para a modernizaçào da MPB?

SUASSUNA: Por iniciativa minha, jamais fiz qualquer referência a Caetano Veloso e Gilberto Gil. As pessoas que me entrevistam é que fazem perguntas a respeito deles. Depois, na maioria dos casos, quando publicam as matérias,ficam me acusando de radical e intolerante por causa das respostas que dou, porque não costumo esconder nem disfarcar o que penso. Mas não gosto de falar mal de nenhum companheiro de trabalho, principalmente quando se trata de pessoas que antes estavam do nosso lado e depois passaram a emprestar seu talento ao outro.

Quem é o artista que, em qualquer área de produção cultural, melhor representa o Brasil?

ARIANO SUASSUNA: Nas artes plásticas, Aleijadinho, Francisco Brennand e Gilvan Samico. Nas cênicas, Antônio José da Silva, o Judeu; Martins Pena, Qorpo Santo e Artur Azevedo. Na literatura: Euclides da Cunha, Augusto dos Anjos. Na música, José Mauricio Nunes Garcia,Villa-Lobos, Guerra Peixe, Ernesto Nazareth, Capiba e Antônio José Madureira. No vídeo e no cinema, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos,Vladimir Carvalho, Guel Arraes e Luiz Fernando Carvalho.

O senhor reclama de que "o patrocínio de multinacionais nos eventos é uma tentativa de adormecer a resistência de nosso povo e aviltar a cultura brasileira pelo suborno dos intelectuais". Quais são os patrocínios que o senhor considera suborno?

SUASSUNA: Recusei indicações para o Prêmio Shell e para o Sharp. Recusei-me a participar da Bienal Nestlé de Literatura. Não fiz isto para me exibir nem para incorrer em falta de fraternidade com escritores e artistas que não têm as mesmas idéias nem as condições que eu tenho. Tais condições me deixam à vontade para recusar. Por isso, peço licença para, de uma vez por todas, encerrar este desagradável assunto.

O "gosto médio", a que o senhor se refere com desprezo, é "pior do que o mau gosto". Quais são hoje os piores exemplos da vitória do "gosto médio" sobre a qualidade artística?

SUASSUNA: O gosto médio a que me refiro é ligado àquele mesmo lixo produzido pela indústria cultural de massas. É fácil identificar na produção cultural brasileira de hoje quem segue tais padrões ou com eles se acumplicia.

O senhor, que é secretário de um governador que se declara um intransigentemente nacionalista, gostaria de ser ministro de um presidente neoliberal?

SUASSUNA: Sou amigo do governador Arraes, mas só concordei em ser secretário porque acho que ele representa, no campo da política brasileira, o mesmo que eu procuro ser na cultura. O cargo tem me trazido muitas e ardentes alegrias. Mas está me obrigando também a fazer coisas que detesto, como viajar. Imagino o que não aconteceria como ministro, motivo pelo qual não exerceria tal cargo com nenhum presidente, neoliberal ou não.

Do que trata o livro que o senhor vem escrevendo há anos? Qual o impacto o senhor gostaria que o livro tivesse no meio literário brasileiro?

SUASSUNA: O livro, ainda sem título, é um romance que, se for concluído como pretendo, será uma espécie de revisão e recriação de tudo o que escrevi. Quanto ao "impacto", não tenho nenhuma originalidade. Gostaria que o livro tivesse boa aceitação de público e de crítica. Mas tenho consciência de que sou um escritor de poucos livros e de poucos leitores. Já ficarei feliz se meu corajoso editor não tiver prejuízo.

Se um violeiro o procurasse com uma guitarra, o que o senhor faria?

SUASSUNA: Um violeiro com uma guitarra na mão seria aquilo que, em Lógica, se chama uma contradição em seus próprios termos. Ele não seria mais um violeiro e sim um guitarrista. E provaria, com a nova opção, que nem como violeiro prestava.

[in O Globo, Prosa & Verso, 06.10.96]